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Mês do Orgulho LGBT: Acolhimento como um ato político 

30.06.2025
Alumni

No Mês do Orgulho LGBT, Gabriel Mota reforça que acolher é também um ato político. Professor e ativista em Manaus, Gabriel é um dos idealizadores da Casa Miga, um centro de acolhimento pioneiro para pessoas LGBT+ e refugiados. 

Com uma trajetória marcada pela resistência e pelo desejo de construir uma sociedade mais justa, ele relembra sua própria história de superação e fala sobre o papel da educação e da política como ferramentas de inclusão e mudança social.

Vivência pessoal como caminho para a política 

Natural de Manaus, Amazonas, Gabriel é ativista pelos direitos da comunidade LGBT+. Professor da rede estadual e municipal, atua também como educador comunitário na Fundação de Medicina Tropical, hospital referência em doenças tropicais no Amazonas, onde coordena uma equipe de prevenção combinada do HIV, desde 2018. 

Filho de mãe solo, sua vivência pessoal está quase que completamente ligada com sua atuação como ativista e ator político. Assim como muitos, sua adolescência foi um período que moldou bastante sua trajetória e foi crucial para questionamentos que o fizeram promover mudanças na sociedade. 

Alumni RenovaBR, o ativista conta que a formação mudou sua trajetória política e, apesar de não ter tido êxito em suas candidaturas para deputado estadual e vereador, fazer política nunca esteve fora do seu dia a dia. 

“Nunca fui o tipo de adolescente que passou por algum tipo de homofobia no ambiente escolar, não duramente. Passei pelo afastamento, que é uma das formas de homofobia. Mas a violência física nunca aconteceu comigo. Já a violência simbólica, que é verbal, veio muito de dentro de casa”, compartilha.

Segundo o ativista, foi com sua mãe com quem teve que promover uma educação sobre a comunidade LGBT pela primeira vez. “Com a violência dentro de casa, enfrentando o preconceito e a violência verbal, eu entendi que só tinha eu por mim mesmo”, conta. 

Por mais que Gabriel tivesse o apoio de familiares, não tinha o principal apoio, que era o de sua mãe. “Então eu tive que educar minha mãe nesse processo, sem saber que estava educando ela. Colocava folhetos do lado da cama dela, ou indicava filmes para ela tentar assistir.” 

Logo que entrou na vida adulta, Gabriel foi expulso de casa por conta dos entraves familiares. Ainda que tenha ficado pouco tempo fora, pois teve de voltar para cuidar da saúde mental de sua mãe, o momento foi crucial para lhe fazer questionar o que acontece e para onde as pessoas vão quando perdem o próprio teto. “A partir do momento que essas perguntas entraram na minha cabeça, comecei a questionar o que era o movimento LGBT, principalmente na minha região”, explica Gabriel. 

Casa Miga: primeira casa de acolhimento do norte do país

O ativista começou a investigar o que outras pessoas da comunidade sentiam quanto à força do movimento em Manaus através das redes sociais. Desse amplo debate, surgiu um primeiro coletivo chamado Manifesta LGBT+, que reunia jovens para falar sobre as vivências, gênero e sexualidade, saúde, educação e acolhimento. O coletivo se tornou, então, referência de uma nova onda do movimento LGBT em Manaus. 

O diálogo sobre o que é ser expulso de casa começou a partir dos relatos e vivências das pessoas da comunidade. Então, Gabriel e outros colegas se juntaram para desenhar um projeto de uma casa acolhedora inspirada em exemplos de outras regiões ao redor do país. Foi daí que surgiu a Casa Miga, se tornando a primeira casa de acolhimento do norte do país. 

O ativista conta que, no início, o projeto recebeu inúmeros nãos, principalmente do poder público, que não acreditava na causa. Mas, com o tempo, as atividades conseguiram a arrecadação para colocar o projeto em curso, principalmente a partir de doações, como com a promoção de atividades culturais. Com os eventos, a Casa Miga começou a ganhar visibilidade e passou a atrair trabalhadores à disposição para ajudar na causa. Além disso, instituições começam a investir e ampliar o projeto, como a ACNUR (Agência de Refugiados da ONU), que os procurou para que a Casa se tornasse referência nacional no acolhimento de estrangeiros, principalmente de venezuelanos que estavam indo para Manaus em decorrência da crise humanitária. 

Moradoras da Casa Miga, primeiro abrigo para refugiados LGBTI do Brasil, se reúnem com funcionária do ACNUR de Manaus para discutir questoes de proteção e integração. ©ACNUR / João Machado

Na época, em 2018, os acolhimentos começaram em um local pequeno, com pouca organização. Logo de início, acolheram mulheres lésbicas e travestis venezuelanas que, em abrigos convencionais, estavam tendo seus direitos violados. “De lá para cá, nós conseguimos acolher mais de 400 pessoas, e com boa parte delas encaminhadas no mercado de trabalho”, explica Gabriel. 

“No acolhimento, há muita vulnerabilidade envolvida, tanto de quem é expulso de casa, como de quem vem de uma situação de rua e exige um atendimento psicológico e psiquiátrico, que é um desafio e gargalo à ser enfrentado pelas casas de acolhimento, que muitas vezes não tem esse serviço disponível”, complementa. 

Segundo Gabriel, a empregabilidade também é um desafio quando se trata de acolher pessoas que foram expulsas de casa. “Quando as pessoas entram, elas sabem que não vão ficar para sempre, então para superar essa lacuna e promover a reinserção delas, começamos a realizar oficinas de empregabilidade e criação. Neste sentido, as empresas entenderam que poderiam ser nossas parceiras também”, explica o ativista.  

Ele conta que muitas pessoas tiveram oportunidades ao longo da vida por terem tido a acolhida do abrigo por um tempo, até se organizarem. “A Casa Miga hoje não realiza só a acolhida, ela faz oficina e se tornou uma referência de direitos humanos. É quase um centro municipal de referência LGBT, só que sem a estrutura municipal que poderia ter”, pontua.

Diversidade e inclusão na educação
 

Dando aula para diferentes faixas-etárias, Gabriel conta que trabalha a diversidade e inclusão no seu dia a dia de formas diversas. “Em uma sala de aula, às vezes, os alunos fazem posicionamentos heteronormativos e eu tento mostrar que existem várias formas de amor e família”. 

Se atentar aos primeiros sinais que as crianças dão de machismo também é um caminho para promover a educação. Ele compartilha que uma aluna pequena colocou em seu cabelo uma presilha e os meninos da sala começaram a fazer comentários sobre. “Foi então que um aluno do segundo ano disse: ‘ah, o professor é gay!’ e eu lhe respondi que, mesmo se fosse, estava tudo bem. Ou seja, quando eles se expressam dessa maneira, eu tento fazer o caminho reverso, de desconstrução”, explica Gabriel. 

Com adolescentes do ensino médio, a educação é baseada em um conteúdo transversal dando conta de apresentar protagonistas do movimento e importância dele na sociedade. 

Direitos para todos 

Ao abordar a participação de ativistas LGBT+ na política, Gabriel frisa que não se trata de uma luta apenas para a comunidade, mas de uma bandeira de melhor acesso e manutenção da educação. 

“Quando falo que sou LGBT+ e ativista, estou dizendo que quero que as pessoas tenham acesso equânime. Para que os nossos possam estar na escola sem sofrer qualquer tipo de violência. Para que não sofram preconceito independentemente do tipo de serviço de saúde que procurem. Quando luto pelo acolhimento daquele que foi expulso de casa, estou lutando pelo direito à moradia. Então, costumo dizer que uma pessoa LGBT+ não está lutando só por ela, mas por questões que a atravessam na sociedade”, pontua Gabriel.  

No mês do orgulho, o ativista lembra que a política não se faz apenas com mandato, mas também ocupando espaços. Ele ressalta também que é necessário que as empresas entendam que existem inúmeras iniciativas que podem ser ajudadas, não somente no mês de junho e que todos devem fazer parte da mudança, para que ela seja, de fato, efetiva e plural. 

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