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Desenvolvimento social: por que dados e tecnologia são centrais para enfrentar desigualdades 

29.05.2026
Conscientização

“Entrar na política para transformar a vida das pessoas” é uma frase comum que reverbera entre novas lideranças que chegam à política ou à gestão pública. Muitas carregam consigo o desejo de enfrentar desigualdades históricas e ampliar o alcance de políticas sociais já existentes. O desafio, no entanto, surge quando esse compromisso encontra a complexidade do tema – como transformar intenção em política pública concreta? 

Para Laura Muller Machado, economista e professora do Insper, o Brasil não parte do zero nessa tarefa. O histórico de aprendizados e experiências acumuladas no enfrentamento à pobreza se faz importante em um cenário em que novas lideranças surgem na política brasileira. “Para enfrentar a pobreza no Brasil, tem um lado muito bom que é a experiência que temos nisso”, pontua. 

Ela se recorda que, em 2010, a ONU (Organização das Nações Unidas) estabeleceu uma meta para que países reduzissem suas respectivas pobrezas pela metade. O Brasil, na época, alcançou a meta e foi um pouco além, com redução de um terço. A experiência criou uma espécie de tecnologia social desenvolvida ao longo dos anos e, segundo a especialista, é sobre essa base que o país pode avançar. 

Segundo dados do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), atualmente, cerca de 20,6 milhões de brasileiros vivem em situação de extrema pobreza, com menos de R$450 por mês. “É preciso incorporar essa tecnologia robusta que temos, o que temos de novo nesses últimos 20 anos”, explica. 

Dados como ferramenta para enfrentar desigualdades 

Se antes a construção de políticas sociais dependia de informações limitadas sobre as famílias brasileiras, hoje o cenário é diferente. Laura explica que o país dispõe de mecanismos capazes de oferecer um retrato mais detalhado das desigualdades. 

Ela pontua que não faz mais sentido formular políticas sociais apenas a partir da renda declarada por um integrante da família. É necessário compreender múltiplas dimensões da realidade desses núcleos para entender quais políticas são mais adequadas para cada contexto. 

“O desafio para a próxima geração de gestores e lideranças políticas será, justamente, utilizar melhor as informações que já existem”, explica Laura. 

Os desafios da próxima geração de lideranças 

“O desafio do uso de dados para o enfrentamento das desigualdades está à meio caminho andado no Brasil”, pontua. Nesse cenário, Laura destaca o papel do Cadastro Único como uma das principais ferramentas de compreensão da realidade das famílias em situação de vulnerabilidade.

“É uma base de informações incrível, com mais de 100 perguntas que permite entender mais sobre a realidade dessas famílias. Mas, o que fazemos, é que dessas 100 informações sobre essa família utilizamos apenas uma”, explica Muller.

Além disso, a especialista defende incorporar o que chama de “informações tempestivas” – indicadores que captam mudanças rápidas na vida das famílias, como gastos variáveis com internet, por exemplo. 

“Tipicamente famílias mais vulneráveis apresentam variações grandes de renda e compreender essas questões pode levar à um maior entendimento do comportamento”, comenta. 

Para Laura, combater a pobreza com mais eficiência exige uma combinação entre técnica, informação e melhor direcionamento dos benefícios. 

Nesse contexto, ela afirma que um dos erros que novas lideranças precisam evitar é tratar o combate às desigualdades apenas como uma questão de intenção política, sem enfrentar as escolhas técnicas necessárias.

“Para as novas lideranças que estão ingressando na política e para aquelas que atuam no enfrentamento às desigualdades, é preciso decidir, do ponto de vista técnico e político, atuar proativamente nessa agenda, pois não nos falta recurso”, finaliza. 

“Enfrentar a pobreza envolve enfrentar, também, uma realocação de recursos, sem necessariamente reduzi-los”, pontua. Segundo ela, trata-se de um movimento relativamente simples do ponto de vista técnico, mas que, politicamente, esbarra em expectativas, disputas e interesses diversos.

Foto: Rushfy

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