Mesmo com avanços tímidos, a política municipal brasileira ainda carrega um déficit histórico de gênero
Apesar de serem a maioria da população brasileira, com 51% do total, as mulheres seguem invisibilizadas nas estruturas do poder municipal. Atualmente, elas ocupam apenas 18% das cadeiras legislativas nas câmaras de vereadores e apenas 13% das prefeituras do país – índices que evidenciam o profundo desequilíbrio de gênero na política local. Como explicar essa disparidade em uma democracia representativa?
O Mapa da Desigualdade Eleitoral Municipal, desenvolvido pela gerente de Business Intelligence do RenovaBR, Eloá Monsores, traz uma análise sobre os gargalos que dificultam o avanço das mulheres nos espaços de decisão, apontando não só para barreiras estruturais persistentes, como também caminhos possíveis para sua superação — entre eles, a qualificação política como fator decisivo de transformação.
Política municipal: as mulheres ainda são minoria nas Câmaras
A sub-representação feminina na política brasileira segue alarmante e revela que o problema vai além das urnas. É, na sua essência, estrutural. De acordo com os dados do Mapa da Desigualdade Eleitoral Municipal, em 2024, mais de 13% dos municípios do país – um total de 737 cidades – não elegeram sequer uma mulher para a Câmara de Vereadores. Em outros 29% – 1.631 cidades – há apenas uma vereadora entre os eleitos.
Histórias que revelam a desigualdade
Esse é o caso de Palmeira, no Paraná, onde Fabíola Mereles, liderança RenovaBR, é a única mulher no Legislativo local. Aos 22 anos, ela carrega não só a responsabilidade de representar a população, mas também o peso simbólico de quebrar um ciclo de 24 anos sem mulheres na Câmara de sua cidade.
“Há mais de 24 anos, nós não tínhamos uma mulher na Câmara de Vereadores. Sempre vimos elas sendo utilizadas como laranjas, para completar a chapa. Nunca tendo financiamento para ser eleita. Então, o meu resultado chamou atenção”, destaca Fabíola.
Fabíola iniciou sua trajetória política cedo, motivada pela ausência feminina no Legislativo municipal. Sua primeira tentativa, em 2020, quase deu certo: faltaram apenas quatro votos para ser eleita. “Essa experiência me marcou e me fez querer fazer diferente em 2024”, lembra.

A jovem vereadora atribui parte de sua decisão ao incentivo familiar e ao apoio de uma professora, que ressaltou a importância da representatividade. “Mesmo sem título eleitoral no início, consegui colocar a campanha de pé. Foi tudo muito rápido, mas a pandemia acabou prorrogando o processo e isso me deu tempo para me organizar”, conta.
Naquela eleição, a realidade dura do financiamento desigual ficou evidente. “Minha campanha foi majoritariamente voluntária. Na época, o partido me deu uns 10 mil santinhos e 20 adesivos. Era só isso. Enquanto isso, os homens tinham combustível e mais materiais, além do contato com empresários. Hoje eu olho pra trás e me pergunto como conseguimos realizar aquela campanha”, relata.
Segundo Fabíola, a falta de transparência sobre o uso das cotas para mulheres é um obstáculo gigante que impede as candidatas de usufruírem de todas as estratégias disponíveis. “As mulheres que não têm conhecimento sobre financiamento partidário sofrem demais. Os partidos muitas vezes escolhem mulheres só para cumprir cota, sem intenção real de elegê-las”, afirma.
Em 2024, a realidade foi outra. Fabíola buscou formação política e encontrou no RenovaBR um diferencial para sua campanha. “Eu levei essa ideia de capacitação para a campanha. Fui mostrando que precisávamos de vereadores preparados, que conhecessem sua função”, afirma. Segundo ela, o aprendizado técnico e estratégico fez a diferença não apenas na eleição, mas também no exercício do mandato.
Ser a única mulher na Câmara trouxe desafios inesperados, inclusive situações de violência política de gênero. “Já tive decisões em votações em que eu precisava de apoio e não tinha com quem contar. Sou uma pessoa que preza pela técnica e evidências. Mas isso não é unanimidade nesses ambientes e, por vezes, alianças se sobressaem”, diz.
Ela conta que também sente existir uma cobrança desigual sobre sua atuação, quando comparada com os mandatos de colegas homens. “Eu preciso provar duas, três vezes mais o meu trabalho. Enquanto um homem que só vai à sessão e às reuniões das comissões é visto como o melhor vereador, eu preciso estar todos os dias na Câmara, nas ruas, estudando, para que nosso mandato seja representativo. E ainda assim, tenho que provar que sou uma boa vereadora”, afirma.
Para Fabíola, a luta por mais mulheres na política é urgente: “Meu maior sonho só será realizado quando eu sair do mandato e conseguir eleger outras mulheres e jovens para ocupar esse espaço”, conclui.
Outra realidade, os mesmos desafios
Mesmo com um pequeno avanço da presença de mulheres no legislativo municipal, que passou de 16% em 2020 para 18% em 2024, o ritmo de crescimento mostra que as barreiras que impedem essa participação não são apenas fruto da escolha eleitoral das pessoas, mas de um sistema que afasta, ano após ano, as mulheres da política. Seja por falta de apoio partidário, financiamento desigual ou por uma cultura e ambiente político ainda dominados por homens.
Vereadora de Goianá (MG), Aline Flausino também partilha da resistência e importância da qualificação em sua trajetória. Seu desafio em ocupar espaços começou ainda na infância, na zona rural da cidade. Criada na antiga Fazenda Fortaleza de Santana, ela cresceu com um olhar atento para as desigualdades.
“A política que eu sempre conheci no município era habitada por homens brancos, mais velhos, de famílias tradicionais, de sobrenome forte na cidade. E como eu imaginava uma menina, uma mulher, preta, vinda lá da roça, agente comunitária de saúde, recém-formada, educadora popular, se ver nesse espaço?”, questiona Aline.

Seu primeiro impulso diante do convite para disputar as eleições, em 2019, foi recusar. Mas a reflexão sobre o impacto dessa ausência a fez mudar de ideia. “Foi justamente por não me enxergar nesse espaço que aceitei o desafio. Representar quem nunca foi representado. Não me ver ali e entender que, para outras mulheres, era muito importante eu ocupar aquele espaço”, diz.
Em 2020, ela se tornou a vereadora mais votada da cidade e, quatro anos depois, reconquistou a confiança do eleitorado, permanecendo como a única mulher no legislativo municipal. Aline admite que a cobrança foi maior. “Eu observei muitos vereadores, homens, brancos, que foram reconduzidos também. Muitas das vezes não foram tão cobrados quanto eu fui. Para ser reconduzida e reeleita, eu tive que trabalhar muito”, pontua.
Segundo ela, esse resultado é fruto de um trabalho coletivo e participativo, diferente da política tradicional da cidade. “Sempre coloquei a luta popular em primeiro lugar, com escuta, participação real da população e comunicação transparente. Em uma cidade acostumada com a troca de favores, eu escolhi outro caminho”, destaca.
Mas romper com padrões históricos não é simples. “Estar na política e nesse espaço sendo mulher, negra e jovem é muito desafiador. Enfrentamos machismo o tempo todo”, relata. Aline fala também sobre os impactos emocionais dessa realidade: “Existe uma sobrecarga mental que, às vezes, adoece a gente. O ambiente político parece que não foi feito para nós. E é exatamente por isso que precisamos estar nele: para transformar, para ocupar”, afirma.
Desigualdade de gênero nas prefeituras: barreiras e caminhos para mudança
Em 2024, apenas 732 mulheres foram eleitas prefeitas, contra 4.800 homens. Isso significa que somente 13% das cidades são lideradas por mulheres. Em outras palavras, a cada 10 municípios brasileiros, 9 são governados por homens.
Mesmo com um ligeiro avanço no financiamento para candidaturas femininas, a ocupação dos cargos majoritários ainda está longe de refletir a maioria da população. Para Lucielle Laurentino, prefeita de Bezerros (PE) e liderança formada pelo RenovaBR, a desigualdade não é apenas uma questão de capacidade, mas de oportunidade.
“A minha trajetória comprova que competência não tem gênero. A sub-representação das mulheres na política não é apenas por falta de capacidade, e sim de oportunidade. Precisamos mudar essa lógica e isso começa por visibilizar gestões femininas que entregam resultados concretos”, afirma.

Lucielle governa uma cidade do interior pernambucano e sabe que ocupar esse espaço exige mais do que preparo, mas principalmente exige resiliência. “Ser mulher e estar à frente do Executivo é desafiador, mas também é uma missão. Governar num ambiente historicamente masculino requer firmeza e legitimidade, e o respeito se conquista com trabalho e entrega”, destaca.
Para a prefeita, os números apontados no Mapa da Desigualdade Eleitoral Municipal revelam um obstáculo estrutural de uma ausência de estímulo e suporte adequado. “O que ainda impede mais mulheres de assumirem a chefia do Executivo não é a falta de técnica, mas a ausência de estrutura que permita à mulher se dedicar à vida pública. Com incentivo correto, apoio institucional e foco em resultados, acredito que mais mulheres estarão prontas para liderar”, defende.
A experiência de Lucielle também demonstra que a mudança passa por redes de apoio e formação política. “Ninguém avança sozinha. Redes quebram o isolamento, a formação nos prepara para a gestão, e os partidos têm o dever de abrir espaço real, não apenas cumprir cotas. Apoiar mulheres na política não é favor, é compromisso com a democracia”, reforça.
A desigualdade de gênero na política brasileira continua sendo um desafio estrutural que demanda ações concretas e coletivas. Capacitação, redes de apoio, transparência nos recursos e compromisso real dos partidos são passos indispensáveis para equilibrar a representatividade. Afinal, fortalecer a presença feminina não é apenas corrigir uma injustiça histórica — é garantir uma democracia mais plural, diversa e capaz de refletir a sociedade que pretende representar.