Nascida em Belo Horizonte e criada em São Bernardo do Campo (SP), Neon Cunha é ativista independente e Alumni RenovaBR. Com uma história marcada pela luta por dignidade e direitos, Neon expôs sua vida em busca de mudar procedimentos legais que eram obstáculos nos processos de troca de nome e de gênero de pessoas trans. Atravessada por diversas formas de preconceito – racismo, pobreza e LGBTfobia – sua trajetória política vem de longe, como ela mesma diz, com a soma de todas as suas experiências.
Foi acompanhando a mãe no trabalho como faxineira que Neon teve sua primeira experiência de emprego e, principalmente, a certeza de que era uma mulher. “Filha de uma grande faxineira”, como diz a ativista em algumas entrevistas. Foi também na faxina que começou a ter a percepção dos lugares no mundo que eram delegados às mulheres.
Construindo o seu caminho na alternância entre os estudos e o trabalho, a ativista foi, pouco a pouco, vivenciando invisibilidade e violência, compreendendo quais eram os impactos da sua identidade multifacetada no seu dia a dia. Neon conta que era no centro de São Paulo onde, muitas vezes, conseguia receber e dar apoio para suas semelhantes. “Tinha violência, mas era ao mesmo tempo um lugar de celebração, de resistência e denúncia”, conta. Discutia-se sobre a democracia, exclusão e a falta de pertencimento.
A luta por inclusão e pertencimento
Para ela, não houve um momento específico no qual decidiu embarcar na transição. Mas, apenas a percepção de que não bastava mais viver como era. Foi a partir de então que Neon Cunha traçou um caminho que mudaria diversas vidas de pessoas transgêneras no Brasil.
Sua decisão em retificar seus documentos, em 2014, está intrinsecamente ligada ao direito da existência, sem a necessidade de um processo judicial para reconhecimento legal de nome e gênero. A ativista teve seu pedido de retificação de documentos negado, o que desencadeou uma atitude de profunda coragem pois, na época, a legislação brasileira exigia um laudo médico para que pessoas trans pudessem alterar seu nome e gênero legalmente. Para Neon, o requisito era um obstáculo que “roubava a dignidade e o próprio direito de existir de inúmeras pessoas”.
Foi então que Neon pediu à Justiça o direito à morte assistida, caso não pudesse mudar de nome e gênero sem o diagnóstico médico. Em 2016, Neon Cunha ganhou o processo – a morte assistida não foi autorizada, mas seu ato de bravura abriu um precedente legal crucial no país e, desde então, essa ação influenciou diretamente a mudança na legislação e o reconhecimento dos direitos das pessoas transgêneras no Brasil. “Em 2016, uma mulher preta está dizendo para o Brasil que ele foi perverso”, pontuou a ativista ao contar a história em entrevista.
Como Neon mesma afirmou, “Quando vamos além do indivíduo, construímos para a sociedade”. Sua trajetória demonstra como a luta pessoal por direitos pode gerar um impacto coletivo e duradouro, consolidando Neon como uma agente de transformação com um legado inestimável.