No Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de Junho, o mundo volta seus olhos para os desafios ambientais que nos rodeiam diariamente. Frente a crise climática, lideranças políticas ao redor do globo devem buscar maneiras de lidar com os obstáculos sociais, políticos e econômicos que a preservação ambiental e adaptação climática exigem.
Para compreender tais desafios e o papel fundamental da formação de lideranças capazes de responder à emergência climática, ouvimos a Isabela Rahal, liderança RenovaBR e Programme Manager do Climate Emergency Collaboration Group.
Em um ano importante, com o Brasil como sede para a COP30, Rahal pontua que a crise climática é uma questão política também, que exige uma visão estratégica de lideranças políticas comprometidas com a sustentabilidade.
O Dia Mundial do Meio Ambiente nos convida à reflexão sobre o futuro do planeta. Na sua visão, qual é o papel das lideranças políticas na resposta à emergência climática?
Ainda que possamos ter algumas ações de curto prazo, como em termos de mitigação, o papel das lideranças é fundamental, porque, diferente de algumas outras políticas públicas, a maioria do que fazemos hoje só se mostrará efetivo no longo prazo.
Dentro do contexto de emergência climática que vivemos, é preciso ter um novo olhar para o que nós vemos de desenvolvimento e de política pública, pensar de maneira transversal. E ainda que a liderança não seja da área climática, é fundamental ter essa consciência e buscar especialistas corretos para que seja possível ter essa perspectiva.
Você faz parte do Climate Emergency Collaboration Group, que atua justamente para promover colaboração entre diferentes atores frente à crise climática. Quais aprendizados dessa experiência internacional você destacaria como essenciais para o Brasil?
Eu gerencio projetos, financio, apoio e forjo conexões para que possamos usar essa colaboração de maneira a aumentar a ambição climática, os compromissos climáticos a nível global e a nível local.
Em termos de aprendizado, o mais importante é estarmos diante de um problema que é global. Ou seja, ainda que a solução seja local, é necessário ser global em termos de compromisso. Essa conexão entre a implementação e as decisões políticas, a nível de negociação, a nível internacional e nacional, ela precisa estar muito forte. E hoje ainda não temos isso. Temos um buraco, uma lacuna gigantesca entre as decisões que são tomadas a nível global e a implementação dessas decisões a nível local.
E esse é o nosso principal desafio, que também está sendo um dos principais focos da presidência brasileira da COP30, que é garantir que uma era de implementação. Muita coisa vem acontecendo, muitas políticas públicas, mas precisamos acelerar e ter a certeza de que nossos compromissos se traduzam em políticas nacionais e locais.
A emergência climática é, em muitos casos, sentida de forma mais intensa por comunidades vulneráveis. Como garantir que políticas públicas ambientais levem em conta essas desigualdades?
Mais do que garantir políticas públicas ambientais levando em conta as desigualdades, é preciso garantir políticas que levem em conta as desigualdades sociais. Elas não podem ser separadas, porque uma coisa não consegue caminhar sem a outra.
Por exemplo, nós precisamos desenvolver a Amazônia. O modelo que temos hoje, que é o modelo de grilagem, é absolutamente degradante para as pessoas, prejudica a saúde, não causa desenvolvimento social, mas é hoje o que movimenta a economia local. Então, nós conseguimos combater até certo ponto. Se não tivermos uma solução econômica viável para as populações que estão na Amazônia, não dá para continuar debatendo.
Então, é desenvolver de maneira sustentável, mudar o modelo econômico para uma economia que inclua as pessoas e que seja sustentável em termos ambientais. Essas coisas não conseguem ser desenvolvidas de maneira separada, é impossível e não é sustentável no longo prazo, nem de um ponto de vista ambiental, nem de um ponto de vista social.
O que é essencial na formação dos nossos líderes para que eles estejam preparados para lidar com essa agenda?
O essencial é entender que tudo, de maneira absolutamente transversal, vai ter que considerar mudanças climáticas. A maneira como trabalhamos a política pública e o nosso planejamento precisa ter essa perspectiva de alguma maneira.
Por exemplo, se vamos desenhar novas escolas públicas, precisamos pensar no conforto térmico, na localidade, até mesmo se é possível termos energia solar, que pode baratear o custo de energia. Ou seja, considerar os impactos das mudanças climáticas e o que é possível mitigar.
Então, é realmente uma mudança completa. É pensar fora da caixa e mudar a maneira como a gente faz as coisas de fato. Isso, infelizmente, leva tempo que a gente não tem. A compreensão dos líderes políticos é absolutamente essencial.
O Brasil tem enorme potencial de protagonismo na agenda ambiental global. O que nos impede de assumir esse papel com mais força — e como novas lideranças podem mudar isso?
O Brasil é um dos países com a matriz energética mais limpa do mundo, mas há algumas questões que ainda nos seguram e nos impedem de aproveitar completamente o nosso potencial como potência verde. A principal delas é que não é simples você mudar toda uma economia e, por muito tempo, nós nos baseamos em formas não sustentáveis, como a venda de petróleo.
Então essa transição econômica que precisa acontecer é desafiadora, leva tempo e é um problema muito antigo do país. Há uma porcentagem grande demais da economia, de pessoas que hoje estão como decisores políticos, que não pensam no futuro, em como isso vai prejudicar nosso comércio internacional a longo prazo, e como isso vai prejudicar as vidas das pessoas a longo prazo.
E claro, temos também a questão do desmatamento, que ainda é um desafio gigantesco. Precisamos encontrar formas de desenvolver a economia na Amazônia, aproveitar todo o seu potencial sócio-bioeconômico, de uma maneira que seja possível realmente fazer uma troca econômica.
Isso é complexo, leva tempo, mas nós tivermos mesmo um projeto de país, se estivermos comprometido a ter um desenvolvimento de longo prazo, a ser líder, precisamos parar de olhar no curto prazo e olhar para o país como um todo e tomar as decisões difíceis; olhando em um horizonte de 10, 20, 30, 50 anos. Não nas próximas eleições.