Entre o desenho de uma política pública e a realidade de uma família em situação de vulnerabilidade social existe um fio condutor que é, muitas vezes, decisivo – a gestão pública. É no contato direto com os territórios que programas sociais deixam de ser apenas ideias no papel. Para a servidora pública e coordenadora do Programa Criança Feliz em Itu (SP), Isis Paloma, esse processo requer presença, articulação e escuta.
Alumni RenovaBR, é formada em Direito e tem uma trajetória na assistência social e defesa dos direitos das mulheres, atuando justamente no ponto em que políticas públicas chegam às famílias.
Para Isis, o principal obstáculo para a execução das políticas sociais é compreender que a vulnerabilidade social não aparece de forma isolada. “Muitas famílias enfrentam, ao mesmo tempo, desemprego, insegurança alimentar, violência, adoecimento emocional, fragilidade nos vínculos familiares e dificuldade de acesso a direitos básicos”, afirma.
Por isso, ela destaca que políticas públicas isoladas tendem à ter um alcance limitado. A integração entre assistência social, saúde, educação, habitação e outros serviços gera respostas mais eficazes. “Quando as políticas públicas dialogam entre si, conseguimos enxergar a família de forma mais humana e construir respostas mais eficientes”, pontua.
Quando o território se torna ponto de partida
Isis destaca a centralidade que a presença no território têm. Muitas vezes, famílias em situação de maior vulnerabilidade não conseguem acessar serviços sozinhas – seja pela falta de informação, recursos ou medo.
“Quando a equipe está presente no território, cria vínculo, escuta e acolhe, a política pública deixa de ser apenas uma estrutura administrativa e passa a gerar transformação concreta na vida das pessoas”, diz.
Tal lógica orienta o funcionamento do programa Criança Feliz, do qual é coordenadora, e que acompanha gestantes e crianças pequenas, de zero à seis anos, em situação de vulnerabilidade social por meio de visitas domiciliares realizadas por profissionais da área. Além de orientar sobre cuidados básicos, o programa fortalece vínculos familiares e cria ambientes seguros para o desenvolvimento infantil.
“É uma política pública que tem um papel importante de articulação. Durante o acompanhamento, muitas vezes, identificamos demandas relacionadas à educação, violência doméstica, insegurança alimentar, e realizamos o encaminhamento para o acompanhamento junto à rede intersetorial”, explica Isis.
Transformação também exige ocupar espaços
Ao longo de sua trajetória, a servidora acompanhou histórias que reforçaram tanto o potencial quanto os limites das políticas públicas. Ela relata ter visto famílias chegarem aos serviços em situações de extrema fragilidade e, a partir do fortalecimento de vínculos e do acesso a direitos, reconstruírem autonomia e perspectivas de vida.
Mas a experiência também mostrou os limites da atuação estatal quando faltam continuidade, investimento e integração entre políticas. “Nenhuma política consegue produzir impacto sozinha”, ressalta.
Foi justamente a partir dessa vivência que surgiu a decisão de disputar espaços políticos. Candidata nas eleições de 2022 e com planos de seguir construindo sua trajetória pública nos próximos anos, Isis afirma que a experiência técnica despertou-lhe a percepção de que a transformação social também depende dos espaços de decisão.
Para ela, profissionais que conhecem a realidade dos serviços públicos e acompanham o cotidiano das famílias precisam participar da construção política institucional.
“Quem conhece a realidade das famílias, das mulheres, das crianças e dos serviços públicos entende que política não deveria ser apenas discurso, ela precisa ser compromisso, responsabilidade e transformação concreta na vida das pessoas”, finaliza.