Mais de 200 meninas reunidas, somadas à dezenas de voluntários mobilizados para um objetivo em comum. Esse foi o resultado do projeto “Vai, Menina!”, que ganhou vida em Guarulhos, em outubro do ano passado. Reunindo jovens de diferentes regiões vulneráveis, o evento criou um espaço seguro de escuta, aprendizado e fortalecimento.
Idealizado por Luciana Sabbag, Alumni RenovaBR e especialista em Políticas Públicas e Projetos Sociais, o “Vai, Menina!” surgiu da convicção que promover equidade de gênero e empoderamento feminino é uma pauta que precisa estar no centro das políticas públicas, exige um trabalho coletivo e deve chegar nas mulheres desde cedo.
O encontro reuniu meninas de 10 e 18 anos, que participaram de rodas de conversa sobre autoestima, pressão estética e violência, além de oficinas práticas de defesa pessoal, segurança digital e expressão criativa.
A experiência de tirar o projeto do papel traduz, na prática, a visão que Luciana constrói ao longo de sua trajetória. “Sempre me incomodou perceber como tantas meninas e mulheres crescem com medo, com menos oportunidades ou sendo ensinadas a se diminuir. Mas foi quando comecei a trabalhar com projetos sociais e, depois, com organizações como a Plan International que isso se transformou em uma causa estruturada na minha vida”, conta.
Para ela, políticas públicas que ignoram essa etapa acabam atuando apenas sobre os efeitos e não sobre as causas das desigualdades. “Entendi que não basta falar de igualdade quando as mulheres já são adultas. É preciso começar pela infância e adolescência, fortalecendo as meninas desde cedo”, complementa.
De trajetória pessoal à construção de uma causa coletiva
Desde cedo, ela passou a questionar os papéis e limitações impostos às mulheres e esse olhar foi se estruturando ao longo de mais de quinze anos de atuação na interseção entre gestão pública, terceiro setor e comunicação estratégica.
Neste caminho, Luciana afirma ter enfrentado barreiras comuns a muitas mulheres que buscam espaços de liderança. Ela destaca que existe uma expectativa e exigência para que elas comprovem suas competências.
Foi durante a formação do RenovaBR que a ideia do “Vai, Menina!” ganhou estrutura e se transformou em um projeto concreto. Segundo Luciana, a qualificação e formação política foi essencial para organizar o planejamento, pensar o impacto e viabilizar a mobilização necessária para tirar a iniciativa do papel.
Hoje, o projeto segue em expansão, com novas edições, palestras e oficinas sendo levadas a diferentes cidades e contextos, sempre adaptadas às realidades locais.
Ela ressalta que pensar a pauta das mulheres é compreender que muitas das limitações que enfrentam na vida adulta começam desde cedo. “Meninas são frequentemente ensinadas a serem silenciosas, mais cautelosas e a duvidarem de seu próprio potencial. Por isso, a autoestima precisa ser trabalhada desde cedo, para não carregarmos essa insegurança. Quando trabalhamos a coragem, autonomia e liderança ainda na adolescência, ajudamos a formar mulheres que conhecem seus direitos e acreditam no potencial de ocupar espaços”, pontua.
Mais mulheres e um desafio coletivo para a política
Para Luciana, ampliar a presença feminina nos espaços de poder ainda depende de mudanças profundas. De um lado, é preciso enfrentar barreiras culturais que afastam mulheres da política; de outro, avançar em mecanismos institucionais que garantam condições reais de participação.
Ela também chama atenção para o impacto da violência política de gênero, que desestimula a atuação feminina, e para a necessidade de maior investimento em candidaturas de mulheres.
Na sua visão, fortalecer meninas desde cedo — como propõe o “Vai, Menina!” — também é parte dessa transformação. Afinal, formar meninas mais confiantes, conscientes de seus direitos e preparadas para liderar é um passo essencial para construir uma política mais diversa e representativa.