Nascida e criada na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a Alumni RenovaBR Joyce Trindade cresceu em um contexto que, historicamente, esteve afastado dos espaços de poder. Primeira pessoa da família a ingressar em uma universidade pública, se formou em Gestão Pública na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),. Foi nesse espaço, permeado pela oportunidade do acesso à educação, que ela entendeu que a gestão pública não era apenas o campo de estudo, mas uma ferramenta de transformação social.
“Minha trajetória prova que, quando o Estado abre portas, vidas inteiras e gerações podem mudar”, afirma. Hoje, aos 29 anos, Joyce é secretária de Políticas e Promoção da Mulher da cidade do Rio de Janeiro e também vereadora eleita no município. Com mais de uma década atuando no serviço público, se tornou, aos 24 anos, a secretária de Políticas para mulheres mais jovem do Brasil.
Segundo ela, as iniciativas lideradas por sua equipe na construção de políticas públicas, voltadas especialmente para mulheres em situação de vulnerabilidade já impactaram mais de um milhão de mulheres e suas famílias.
Políticas públicas voltadas para mulheres
Na secretaria de Políticas e Promoção da Mulher, Joyce esteve à frente da criação e expansão de iniciativas voltadas à proteção, autonomia e geração de oportunidades para mulheres na cidade do Rio de Janeiro.
Entre as iniciativas, está o Cartão Mulher Carioca, um auxílio emergencial voltado a mulheres em situação de violência doméstica. O benefício busca garantir condições mínimas para que as vítimas possam romper o ciclo de violência e recomeçar com mais segurança e dignidade.
Ainda, desenvolveu o Cartão Move Mulher, que oferece transporte gratuito para mulheres atendidas pela rede municipal de proteção. A medida busca garantir que essas vítimas consigam acessar serviços essenciais de acolhimento, atendimento psicológico, jurídico e social.
Joyce também liderou a ampliação das Casas da Mulher Carioca e das Salas Mulher Cidadã, espaços voltados ao acolhimento e à formação de mulheres. Nessas unidades, são oferecidos atendimentos especializados, capacitação profissional e ações de fortalecimento da autonomia feminina.
Além disso, o Programa Mulheres do Rio promove cursos gratuitos de qualificação e empreendedorismo, ampliando as oportunidades de inserção no mercado de trabalho para mulheres cariocas.
Mulheres que ocupam espaços na política
Apesar dos avanços na legislação eleitoral ao longo dos últimos anos, Joyce afirma que a vivência das mulheres que ocupam cargos políticos ainda é marcada por desafios cotidianos que, por vezes, podem até passar despercebidos. A deslegitimação do lugar da mulher no debate se dá em situações que, por mais que pequenas, são recorrentes.
“Todas as mulheres, estejam ou não em cargos de liderança, passam por momentos em que são subestimadas simplesmente por serem mulheres”, reforça. “Às vezes é em uma reunião, quando estamos apresentando uma ideia e alguém nos interrompe cortando o raciocínio. Ou na plenária, quando alguns políticos fazem questão de demonstrar intimidação”.Gestos como esses, explica, fazem parte de uma cultura política historicamente estruturada em torno da presença masculina.

Violência política de gênero
Ao longo de sua caminhada na política, Joyce conta ter enfrentado situações de violência política de gênero. No início de sua carreira, principalmente, os casos de assédio moral eram mais frequentes. Ela relata que muitas dessas situações aconteciam em gestos aparentemente corriqueiros. “Era no toque, no abraço apertado demais, no beijo no rosto diferente. Quando você é uma mulher jovem entrando em um espaço majoritariamente masculino, muitas vezes seu corpo é visto como um território de disputa”, pontua.
Além disso, ela relata que também enfrenta ataques frequentes nas redes sociais, principalmente por atuar diretamente na pauta de enfrentamento à violência contra a mulher. “Grupos organizados fazem ataques nas redes sociais. Já recebi mensagens com ameaças, fotos íntimas enviadas por agressores e frases de cunho sexual tentando me intimidar”, explica. Segundo ela, esse tipo de violência digital é uma das formas mais perversas de silenciamento.
Mesmo com obstáculos, a Alumni acredita que o cenário político brasileiro vem mudando gradualmente, especialmente com o avanço em políticas que incentivam a diversidade nas candidaturas.
“O financiamento das campanhas precisa seguir critérios de cotas de gênero e raça, e isso tem pressionado os partidos a apoiar mais mulheres e pessoas negras”, comentou. Para ela, o amadurecimento dessas regras e o aumento da participação feminina na política têm ajudado a tornar o ambiente mais plural. “Não existe democracia sem diversidade. Somos maioria na sociedade, mulheres e pessoas negras,e precisamos estar representadas também nos espaços de decisão.”
Eleita vereadora em 2024 com mais de 30 mil votos, Joyce reassumiu a Secretaria de Políticas para Mulheres do Rio de Janeiro, considerada a maior do país na área. Para ela, ocupar esses espaços têm um significado que vai além da trajetória individual.
“Quando uma mulher negra, periférica e jovem ocupa um espaço de poder, ela não chega sozinha.Ela abre caminho para muitas outras”, conclui.